“Vale da Rapadura”: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo mostra a realidade de seis escolas públicas do Ceará
“Vale da Rapadura”: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo mostra a realidade de seis escolas públicas do Ceará

“Vale da Rapadura”: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo mostra a realidade de seis escolas públicas do Ceará

OEI. 07/02/2018
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Entre novembro e dezembro de 2016, a repórter Jéssica Welma, do portal Tribuna do Ceará, percorreu quase mil quilômetros para conhecer a rotina de seis das 24 escolas públicas que ocupam os primeiros lugares no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no Brasil. A primeira parte do percurso, de Fortaleza até Sobral, ela fez sozinha, de ônibus. De lá para as escolas, teve a companhia do cinegrafista Nasion Frota, de carro. O material que eles trouxeram de Sobral, Coreaú e Granja rendeu um especial chamado “Vale da Rapadura”, feito para TV, internet e rádio. 

Primeira reportagem convergente do Sistema Jangadeiro, “Vale do Rapadura” levou o primeiro lugar do Prêmio Inep de Jornalismo na categoria “Avaliações da Educação Básica”. A premiação é uma parceria do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com a Organização de Estados Ibero-Americanos para Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Outras seis reportagens foram reconhecidas nesta primeira edição do prêmio, que teve 130 trabalhos inscritos. O resultado foi anunciado em cerimônia no Inep, em Brasília, no dia 20 de dezembro de 2017.

Fonte de energia

“Vale da Rapadura” é uma alusão ao Vale do Silício, importante polo de tecnologia norte-americano. Como explica a matéria, a escolha do termo “rapadura” se dá pela presença do doce no cardápio das escolas de ensino fundamental, estabelecido no Programa Nacional de Educação Alimentar (Pnae) e disponibilizado pela Secretaria da Educação do Estado. 

O Ceará é o maior produtor brasileiro da rapadura. “Como fonte de energia importante para o desempenho de atividades, a rapadura muito bem se relaciona com a disposição de alunos e professores do Ceará para mudar a realidade de pobreza no sertão, através da educação”, escreve a jornalista, autora da reportagem e das fotos do texto premiado com R$ 20 mil. Também participaram do trabalho Roberta Tavares (entrevista), Nasion Frota (filmagens), Mayara Kiwi (design), Adriano Paiva (animação) e Rafael Luis Azevedo (edição). 


Aluno da escola Eliézer Arruda, em Granja (foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)


A repórter

Jéssica Welma se formou em jornalismo em 2013, na Universidade Federal Ceará. Depois de dois anos de estágio no portal O POVO Online, foi contratada para a editoria de Política do jornal O POVO, onde ficou por três anos. “Na Política, a educação era pautada ocasionalmente enquanto política de governos. Fiz matérias sobre a criação das escolas de tempo integral pelo Governo do Estado, sobre a mudança na estrutura das creches de Fortaleza, sobre os debates relacionados aos planos estadual e municipal de Educação, dentre outros. Ainda assim, não era uma área de atuação específica”, comenta.

Quando ela foi para o Tribuna do Ceará, foi com a missão de cuidar de reportagens especiais, com temas diversos. Em 2017, fez duas reportagens ligadas à educação, “Vale da Rapadura” e “Quem Mata o Mosquito”, que fala sobre as pesquisas nas universidades públicas cearenses contra o Aedes aegypti. As duas receberam prêmios.

 

Entrevista// Jéssica Welma


1. De quem foi a ideia da pauta? Surgiu por algum dado novo, algo que tenha chamado a atenção?

A ideia foi do meu editor, o Rafael Luís Azevedo, e da diretora de jornalismo Isabela Martín. Surgiu na época em que foram divulgados os dados do Ideb, no final de 2016. Como o Sistema Jangadeiro tem uma TV em Sobral, percebemos que seria possível conhecer in loco as escolas na região. O dado em si, 77 das 100 melhores escolas do Brasil serem do Ceará, foi o maior alerta para a importância da reportagem.


2. Quanto tempo você levou fazendo a reportagem, levando em conta pesquisa/apuração, redação e edição?

Foram três meses. Iniciei a produção no começo de novembro, viajei no final de novembro/começo de dezembro para captação e levamos dezembro e janeiro para redação, edição e demais processos. Essa foi a primeira reportagem convergente no Sistema Jangadeiro. Ela foi feita para TV, web e rádio, respeitando as especificidades de cada canal. A prioridade sempre foi a reportagem multimídia no Tribuna do Ceará, mas as adaptações de rádio e de TV nos surpreenderam maravilhosamente também.

 

3. Vocês percorreram quase mil quilômetros para conhecer a rotina de seis das 24 escolas que ocupam os primeiros lugares no Ideb no Brasil. Como foi a viagem?  

Foi uma experiência incrível. As paisagens tinham muito o que acrescentar nas histórias também. Por exemplo, chamava atenção a quantidade de ônibus escolares que víamos nas estradas ou de "paus-de-arara". Na estrada que liga Sobral a Coreaú, passávamos por uma comunidade chamada "Pedra de Fogo". No cenário, se via muita fumaça, justamente do processo de produção de cal. A maioria dos moradores vive dessa atividade, caracterizada por um ambiente hostil. São os filhos deles que estão em algumas das escolas que visitamos. Essa mesma relação do ambiente que antecedia a chegada nas escolas foi vista no distrito de Canto, em Coreaú. No caminho, a vegetação é dominada por carnaúba, e a extração e a produção de derivados da planta têm bastante impacto na rotina das famílias e das crianças da região.

 

4. Foi como imaginava que seria? Algo que tenha surpreendido?

Hoje eu acredito que nada do que eu tenha imaginado chegou perto do que eu realmente vi e vivi nessa reportagem. Com exceção de Sobral, cuja expectativa já era a de encontrar um padrão diferenciado nas escolas; as visitas a Granja e Coreaú nos mostraram uma realidade capaz de ser conhecida somente indo até lá. Nenhuma reportagem por telefone - como muito se faz atualmente - daria conta da dimensão da rotina de professores e alunos, da estrutura física das escolas e do ambiente ao redor.

 

5. Na reportagem você diz ter encontrado, nas seis escolas visitadas, "soluções simples - mas planejadas e executadas a rigor - que desmistificam discursos de que, para avançar, a educação precisa de muito dinheiro e investimento em tecnologias". Acha importante fazer matérias como esta, até para mostrar que os bons resultados são consequências de políticas públicas implementadas nesses municípios?

Sim, totalmente! A maioria das pessoas ainda segue a linha do ditado popular "só acredito vendo". O jornalismo tem um papel fundamental na construção desse "visual" que as pessoas esperam. Se um político, por exemplo, dissesse essa frase destacada na pergunta, o impacto, certamente, seria diferente do que é causado a partir da leitura da reportagem.

 

6. Considera importante a existência de premiações como esta, para incentivar trabalhos jornalísticos sobre educação, em especial aqueles que abordem os temas das avaliações e estatísticas educacionais? Acha que pode incentivar os jornalistas a ter maior familiaridade com a utilização/análise de dados, buscar outros olhares, outras abordagens?

Infelizmente a valorização salarial não é uma referência do jornalismo. Também carecemos de reconhecimentos no próprio meio. Então, é, sim, importante estabelecer premiações que incentivem o jornalismo aprofundado tanto horizontal como verticalmente. As premiações nos fazem conhecer novas possibilidades de abordagem, conhecer trabalhos que se tornam referências... Sempre que vejo a lista de reportagens que integram prêmios de jornalismo, fico orgulhosa e inspirada a buscar novos assuntos e/ou novos olhares sobre aquilo que é parte da sociedade.


Leia o especial “Vale da Rapadura”:

http://tribunadoceara.uol.com.br/especiais/vale-da-rapadura/


** Esta é a primeira de uma série de entrevistas feitas com os repórteres vencedores do Prêmio Inep de Jornalismo. Na próxima semana, teremos Luiza Tenente e a reportagem 35% dos professores de educação infantil não têm diploma; entenda a importância da formação em pedagogia”, do portal G1, ganhadora do primeiro lugar na categoria “Estatísticas Educacionais”.