Educação infantil é lugar de homem, sim: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda desafios e preconceitos
Educação infantil é lugar de homem, sim: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda desafios e preconceitos
Guilherme Azevedo (centro) na cerimônia de entrega do Prêmio Inep, em Brasília (Foto: Sandro Damasceno)

Educação infantil é lugar de homem, sim: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda desafios e preconceitos

OEI. 05/03/2018
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No Brasil, para cada professor homem numa creche ou sala de pré-escola, há 26 mulheres, de acordo com dados do Censo Escolar 2016. Qual é o perfil do professor homem do ensino infantil no Brasil? Por que os homens que escolheram ser professores de crianças, trabalhando com educação infantil, ainda enfrentam tanto preconceito? 

Guilherme Azevedo, repórter do portal UOL, foi atrás de respostas para questões como essas na reportagem “Educação infantil é lugar de homem? Eles mostram que sim”, terceira colocada na categoria “Estatísticas Educacionais” do Prêmio Inep de Jornalismo. A iniciativa, que em 2018 terá sua segunda edição, é uma parceria do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com a Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

A reportagem premiada, publicada pelo UOL em 2 de setembro de 2017,  baseia-se em dados e nos relatos de dois professores de São Paulo: Douglas Sanches da Silva, do Colégio Soka do Brasil, e Eduardo Carmelo Conidi, da escola Estilo de Aprender. Com eles, o jornalista mostra o caminho do estigma, os desafios enfrentados, e como o fato de ter um professor homem em sala pode se converter em ganhos para todos, inclusive em nome da diversidade.


O professor Eduardo Carmelo Conidi, na escola Estilo de Aprender (foto: Ricardo Matsukawa/UOL)


O repórter

Guilherme Azevedo formou-se jornalista em 1995, pela Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, e há dois anos trabalha como repórter do portal UOL, do Grupo Folha, onde começou na profissão, como estagiário. Aos 47 anos de vida e 22 anos de profissão, diz que se sente grato e realizado. “A educação é uma luta de todos nós”, ressalta ele, que acompanha a área desde o princípio da carreira, com foco também em direitos humanos e política. 

“Sempre acreditei no jornalismo feito na experiência direta com o mundo, na reportagem olho no olho, com textos bem escritos, com uma pegada literária”, comenta. “Nada substitui um bom encontro e um bom texto. Acho que o resultado final fica melhor, dá mais complexidade e emoção para a história. Acredito na combinação de relatos de pessoas com o uso de bons dados. É a forma que escolhi de transformar a mim e o mundo e de lutar por dignidade e justiça.”

O jornalista também já escreveu e publicou livros de comunicação e literatura, como “As aventuras de Alencar Almeida, o repórter”, de contos-reportagem, “Propaganda popular brasileira”, de entrevistas, e “Corações&Pontes”, um romance infantojuvenil. 

Em entrevista ao site da OEI, ele conta um pouco dos bastidores da reportagem premiada e de como a profissão de professor de educação infantil ainda hoje parece estar “interditada” para o homem por mero preconceito.


Douglas Sanches da Silva, professor do Colégio Soka (foto: Ricardo Matsukawa/UOL)


Entrevista//Guilherme Azevedo

1.  Sua reportagem tem como base um dado curioso: dos 575 mil docentes da educação infantil, apenas 21 mil são homens. A ideia da pauta partiu da própria divulgação desses dados no Censo Escolar 2016? De quem foi a ideia, aliás? 

A ideia da reportagem nasceu do relato de uma professora de educação infantil, por sorte, minha mulher, a Ingrid, sobre a trajetória difícil de um colega de trabalho, também professor de educação infantil. O professor Douglas, um dos protagonistas da reportagem, tinha enfrentado uma série de percalços, sofrido diversos preconceitos para se tornar aquilo com que sonhava desde pequeno. Isso, em parte dentro e fora da casa dele.

Aí somei a história do Douglas à do marido de uma amiga, também professor de educação infantil, o Eduardo, mais ou menos tendo vivido problemas semelhantes, e a reportagem estava de pé do ponto de vista humano.

2. E como você chegou a esses dados? 

Na época da apresentação da ideia da pauta, fiz uma pré-pesquisa no Censo Escolar, que confirmava o quadro entrevisto em geral nas escolas de ensino infantil, com a escala de quase invisibilidade dos professores homens na área. Era a confirmação via dado.

Numa outra etapa, quando fui de fato dar a forma final para as histórias, consolidar informações, mergulhei mais fundo nos dados do Censo. Então, os números revelaram um quadro que pouco se alterara ao longo dos anos, quando comparados com os números dos censos anteriores. Os dados disponíveis também permitiram elaborar o perfil do professor homem do ensino infantil no Brasil, como divisão por faixa etária.

A reportagem, portanto, nasce da observação empírica da baixa presença masculina no ensino infantil, baseia-se em dois relatos de professores, que resumem a dificuldade da participação masculina no nível mais básico da educação, e mostra a abrangência, via dados, da questão colocada. É a face humana e afável para o número, mostrando o drama presente com o objetivo de quebrar preconceitos de gestores educacionais, pais e outros professores.

3. Quanto tempo você levou fazendo a reportagem, levando em conta pesquisa/apuração, redação, edição?

O processo total, desde a apresentação e aprovação da ideia até a edição final, levou mais ou menos um mês. Além da obtenção, seleção e consolidação de dados educacionais (antes e durante, elaborando infográficos para contextualizar a questão), acompanhei também o trabalho dos dois professores, sempre de forma presencial, nas escolas e salas de aula.

4.  O trabalho foi como imaginava que seria? Algo que tenha surpreendido, ou chamado a atenção, durante a apuração?

A apuração foi emocionante e surpreendente: revelou que alguns homens também eram vítimas de machismo, como podia? A profissão de professor de educação infantil era uma posição praticamente interditada para o homem por preconceito, acima de tudo, e isso até os dias de hoje.

Ao homem vocacionado a cuidar dos pequenos pairava também de forma implícita e explícita algumas desconfianças e preconceitos, como se fossem pedófilos e maníacos em potencial, por exemplo, por ocuparem lugar historicamente da mulher. Os professores entrevistados relataram esse caminho do estigma, da suspeita, sendo tachados também de afeminados e homossexuais.

O machismo, que tanto mal faz e fez às mulheres, também não poupa certos homens, sensíveis, cuidadosos e viris à sua maneira. No século 21, depois de tantas conquistas em tantos campos, de mulheres e de homens, quebras de tabus, ainda havia esse por quebrar: o de que homem não podia trabalhar com educação infantil.

Felizmente, pouco a pouco, escolas, como as que contrataram os professores da reportagem, abrem espaço para todos, para o talento e a vocação, sem pré-condições. Também pude observar que o homem tem a contribuir para a boa formação dos pequenos. Há espaço para todos.

5.  Considera importante a existência de premiações como esta, para incentivar trabalhos jornalísticos sobre educação, em especial aqueles que abordam os temas das avaliações e estatísticas educacionais?

A premiação é muito importante, serve como incentivo, sim, ao conhecimento e ao uso das pesquisas e estatísticas educacionais. Coloca o tema em evidência e produz, de certa forma, maior familiaridade com as ferramentas hoje disponíveis. Os estudos produzidos pelo Inep são profundos, abrangentes e confiáveis e servem como fontes numerosas de pautas. Apresentam os dilemas e também as potencialidades da educação brasileira.

É preciso que se reconheça que não se faz bom jornalismo sem bons dados, sem contexto. Isso é fundamental. Uma boa reportagem, centrada em personagens, ganha relevância e pertinência quando amparada e amplificada por dados.  


Leia a reportagem premiada: http://bit.ly/2owY9pr


** Esta é a quinta de uma série de entrevistas feitas com os repórteres vencedores do Prêmio Inep de Jornalismo. Na próxima semana, teremos José Pedro Soares Martins e a reportagem  "Rumo a 2022: como gestão, engajamento e inovação estão melhorando o Ideb em três estados”, da Agência Social de Notícias, terceiro lugar na categoria “Avaliações da Educação Básica”


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