Educação infantil: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda a importância da formação em pedagogia
Educação infantil: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda a importância da formação em pedagogia

Educação infantil: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo aborda a importância da formação em pedagogia

OEI. 12/02/2018
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No Brasil, segundo dados do Censo Escolar 2016, 35,6% dos professores que atuam em creches estudaram somente até o ensino fundamental ou ensino médio. Nos demais anos da educação infantil, a porcentagem é semelhante: 33% dos professores não têm curso superior. Não deveria ser assim, já que a educação infantil integra a educação básica, e os primeiros anos escolares têm muito mais importância do que parece. Mesmo assim, ainda é comum ouvir a pergunta: “Mas realmente é necessário formar-se em pedagogia ‘só para brincar’ com crianças na escola?” 

Para mostrar que a educação infantil vai muito além do “só brincar”, a jornalista Luiza Tenente, do portal G1, elaborou um guia de carreiras dedicado ao tema. A reportagem “35% dos professores de educação infantil não têm diploma; entenda a importância da formação em pedagogia” recebeu o primeiro lugar da categoria “Estatísticas Educacionais” do Prêmio Inep de Jornalismo. A iniciativa é uma parceria do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com a Organização de Estados Ibero-Americanos para Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).


A repórter 

Em entrevista ao site da OEI, a repórter contou um pouco dos bastidores da reportagem e de sua trajetória profissional. Luiza formou-se em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero em 2013. Durante a graduação, fez estágio na Editora Globo, onde trabalhou nas redações de Crescer, Autoesporte e Pequenas Empresas e Grandes Negócios. Quando se formou, foi efetivada na Crescer, como repórter do site. Ali, dedicou-se a pautas de educação e de desenvolvimento infantil. 

Depois de um ano de formada, entrou no mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem na PUC-SP, para estudar os desafios da inclusão escolar de crianças com autismo. Já tinha desenvolvido um livro-reportagem sobre a educação de crianças com deficiência no TCC da faculdade e queria aprofundar sua pesquisa. Nessa pós-graduação, pôde estudar e refletir sobre processos de ensino-aprendizagem, formação docente, inclusão, teoria da complexidade e desenvolvimento da linguagem. 

“Sou filha de pedagoga e professor, então esse assunto de educação sempre esteve presente em casa, à mesa do jantar”, ela conta. “Em 2015, abriu uma vaga na editoria de educação no G1 e passei no processo seletivo. Desde então, sou feliz cobrindo esse assunto.”


Entrevista// Luiza Tenente

1. De quem foi a ideia da pauta? Surgiu por algum dado em particular?

A ideia da pauta foi minha, após analisar os dados do Censo Escolar e buscar informações sobre a formação de professores da educação infantil. Eu estava terminando meu mestrado em Linguística Aplicada e minha linha de pesquisa era Linguagem e Educação. Em uma das disciplinas do curso, meus colegas e eu discutimos o papel do professor atualmente e o desafio de ele proporcionar uma reflexão crítica nos alunos. Debatemos a importância dos primeiros anos escolares, que costumam ser considerados apenas momentos de brincadeira sem intencionalidade. 

Fiquei fascinada ao descobrir todos os ganhos do ponto de vista social e neurológico que uma criança tem ao estar na educação infantil. E isso se torna possível quando o professor tem formação adequada para orientar os processos de ensino-aprendizagem. Quando os dados apontaram que 35% dos docentes da educação infantil não têm diploma, vi ali uma oportunidade de trazer a discussão para uma matéria jornalística.

2. Quanto tempo você levou fazendo a reportagem?

A matéria fez parte de um projeto chamado Guia de Carreiras, em que discutimos as 10 profissões mais procuradas no Sisu, de modo a ajudar os vestibulandos que ainda estavam em dúvida quanto à escolha de um curso na faculdade. A reportagem em questão era uma das cinco que produzi sobre pedagogia. Considerando o processo de examinar os dados, entrevistar as fontes e redigir o texto, foram cerca de quatro dias.

3. Foi como imaginava que seria? Algo que tenha chamado a atenção durante a realização da reportagem?

O dado em si foi o que mais me chamou a atenção. Eu imaginava que havia uma precarização do trabalho na educação infantil e que muitos dos docentes agiam com amor e a melhor das intenções, mas sem a oportunidade de ter feito sequer a graduação. Descobrir que praticamente um terço dos professores que educam nossas crianças não puderam ter a formação adequada me surpreendeu e me mostrou a importância de discutirmos o assunto.

4. Considera importante a existência de premiações como esta, para incentivar trabalhos jornalísticos sobre educação? Acha que isso pode incentivar os jornalistas a ter maior familiaridade com a utilização/análise de dados, buscar outros olhares, outras abordagens?

Sem dúvida. É triste constatar isso, mas sabemos como a educação costuma ficar em segundo plano em nosso país. E não é diferente no jornalismo: a cobertura desse assunto é frequentemente desvalorizada em relação ao noticiário político ou econômico, por exemplo. As equipes que acompanham essa editoria são, em geral, reduzidas. No G1, fico feliz de podermos ter uma equipe de quatro pessoas para acompanhar o assunto de forma mais aprofundada. 

Acredito que prêmios como esse podem estimular a produção de mais reportagens com base nos dados educacionais. É uma forma de também valorizar o trabalho do jornalista de educação. As consequências disso são importantíssimas: quanto mais matérias, mais discussões sobre políticas públicas, formação de professores e estrutura de escolas e universidades em nosso país.


Luiza: "Quanto mais matérias, mais discussões sobre políticas públicas, formação de professores e estrutura de escolas" (foto: Fábio Tito/G1)

 


Leia a reportagem premiada: https://glo.bo/2EqzYSQ

(Foto em destaque: Reprodução/TV TEM)


** Esta é a segunda de uma série de entrevistas feitas com os repórteres vencedores do Prêmio Inep de Jornalismo. Na próxima semana, teremos Larissa Lins e a reportagem “O caminho das pedras: índices de desenvolvimento educacional guiam evolução do ensino básico em Pernambuco", do Diário de Pernambuco, segunda colocada na categoria “Avaliações da Educação Básica”.

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