Projeto colombiano aposta na educação de crianças e jovens para a proteção da água
Projeto colombiano aposta na educação de crianças e jovens para a proteção da água

Projeto colombiano aposta na educação de crianças e jovens para a proteção da água

OEI. 03/04/2018
Tamanho do texto+-

Num dos debates do Planeta ODS, evento com programação paralela ao 8º Fórum Mundial da Água, realizado de 18 a 23 de março em Brasília, a antropóloga colombiana Susana Borda Carulla explicou por que o projeto “Educação participativa para a proteção da água na Colômbia" prevê a participação de crianças e adolescentes em todas as suas etapas, da pesquisa em campo à formulação de projetos. 

“As crianças e os jovens são os geradores de mudança social. Quando eles entendem um problema, eles têm argumentos reais para falar com os adultos ao redor deles. O efeito é muito forte”, justificou Susana, que é secretária-geral da SieNi, organização sem fins lucrativos com sede em Lausanne (Suíça), criada em 2016 para implementar esse projeto, inicialmente no departamento de Antioquia, na Colômbia. A ideia é que depois da fase piloto, que tem três anos de duração, a iniciativa se estenda a outros departamentos e também a outros países.


Susana: “Queremos que as crianças sejam a alma dos observatórios da água"

Susana Borda foi uma das três pessoas que vieram ao Brasil para apresentar o projeto da SieNi durante o 8º Fórum Mundial da Água, com o apoio da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Além dela, estiveram em Brasília dois professores de escolas públicas do departamento de Antioquia: Yimmy Montoya e Gloria María Cardona.

Na semana em que estiveram na capital brasileira, eles se revezaram no estande da SieNi, montado na Vila Cidadã, e puderam inclusive comemorar o prêmio recebido pelo vídeo  “Education for Water Protection in Colombia”. O documentário, que conta a história do projeto, foi o vídeo mais votado na categoria 2 do festival A Voz dos Cidadãos, uma das atividades do 8º Fórum Mundial da Água, recebendo o prêmio de US$ 500 dado pelo Ministério do Meio Ambiente da Coreia do Sul. O festival contou com 110 vídeos de 26 países. O colombiano recebeu 1409 votos.




Equipes de água

Como mostra o documentário, o projeto “Educação participativa para a proteção da água na Colômbia" conta atualmente com 30 grupos de pesquisa trabalhando em microbacias próximas a escolas de Antioquia. Cada uma dessas “equipes de água” é liderada por um professor e reúne geralmente de 15 a 20 alunos. São eles que fazem o diagnóstico do estado da água das microbacias - e assim tomam conhecimento dos principais problemas em suas comunidades. Cada equipe tem um mentor científico que valida a qualidade do diagnóstico realizado.

As pesquisas realizadas pelas crianças e adolescentes, nesta primeira fase do projeto, ajudam a criar uma base de dados que oferecerá um mapa da situação local (uma plataforma web da Universidad Nacional de Colombia reunirá os dados georreferenciados). Numa segunda etapa, que terá início em 2019, serão formulados projetos de pesquisa-ação com base nos diagnósticos feitos pelos estudantes, e montados observatórios de água, que serão acompanhados por cientistas e coordenados por universidades. A intenção é a de que esses projetos, a médio e longo prazo, se convertam em temas de políticas públicas.


Saída de campo de uma das equipes de água, formadas por alunos de escolas públicas de Antioquia


Modelo parecido

Eilane Silva, de 17 anos, e Marcos Vinícius Moreira, de 18, foram dois estudantes que pararam no estande da SieNI para ouvir Yimmy Montoya mostrar o trabalho que realiza com 44 alunos do 9º ano na Institución Educativa Fray Julio Tobón Betancur, em El Carmen de Viboral, cidade a 54km de Medellín. 

“A explicação dele foi muito boa. Vimos que tem muita coisa parecida com um projeto de que participamos, o Ciência Cidadã”, comentou Eilane, referindo-se a uma das experiências desenvolvidas em escolas públicas pela AquaRiparia, a rede de pesquisa coordenada pela Universidade de Brasília e a Embrapa. “Havia um córrego perto da escola e lá a gente analisava a qualidade da água e discutia sobre conscientização. O que deixa a gente mais feliz é ver que existem iniciativas como esta em outras partes do mundo.”

Marcos gostou, por exemplo, da explicação de Yimmy sobre os insetos aquáticos, que ajudam a monitorar a qualidade da água, e de como o professor trabalha na escola os temas da flora e da fauna ao redor da bacia hidrográfica. Achou parecido com o que ele e Eilane viam no Ciência Cidadã também, como “sentinelas da bacia” (como eram chamados os estudantes que faziam a análise da água). “Nosso interesse por biologia, agronomia e química vem daí”, contou. 


Os brasilienses Eilane e Marcos participaram de um projeto parecido, "Ciência Cidadã" 

Aulas ao ar livre

Para Yimmy Montoya, que é professor de Ciências Naturais e há anos vem pesquisando o tema da água, o projeto tem sido uma boa maneira de “dinamizar o currículo” e entreter os alunos, a maioria em torno dos 14 anos. “Posso aproveitar para falar de taxonomia, por exemplo, um tema que às vezes é pesado para os estudantes. Aproveito que estamos no campo para estudar os insetos aquáticos, as plantas, e a partir daí temos uma taxonomia mais didática, mais agradável, mais tangível para eles”, observou.

Em Carmen de Viboral, onde fica a escola em que Yimmy leciona, eles tomaram como exemplo uma microbacia próxima do colégio e, além de estudar a qualidade da água, precisam caracterizar flora e fauna, e estar atentos ao uso social da água. “Conversamos com as pessoas da área, geralmente camponeses, e esses diálogos correm em muitas direções. Os meninos querem saber que plantas usam para alguma dor, se eles têm a proteção do Estado... Perguntam e anotam tudo.”


O professor Yimmy Montoya no estande da SieNi montado na Vila Cidadã, em Brasília

Grupos de trabalho

Em Envigado, onde trabalha Gloria María Cardona, o entusiasmo também parece crescente. Eles escolheram um tramo de 300 metros de uma microbacia próxima à escola, na Quebrada Ayurá, e se dividiram em quatro grupos de trabalho: flora, fauna, delimitação geográfica e estudo social das condições da água. Cada saída de campo rendeu uma série de atividades e de reflexões a respeito delas, registradas inclusive em diários de viagem. Para o estudo da qualidade da água, eles contaram com um mentor,  Alejandro Beltrán, que é professor universitário e especialista no tema. “Ele foi parte fundamental no projeto”, ressaltou Gloria.

Professora da Escuela Normal Superior de Envigado, a 12km de Medellín, ela participa do projeto desde o início de sua implementação, em setembro de 2017, orientando as pesquisas dos alunos do 8º, 9º e 10º anos e da formação complementar (o ciclo em que se formam aqueles que querem ser professores), ao lado de outra professora da escola, Débora Luisa Muriel. 


Gloria Cardona fez três saídas de campo com seus alunos em Envigado

“Os estudantes estiveram muito motivados com suas lupas, fazendo suas investigações”, contou Gloria, que fez três saídas de campo com os alunos, acompanhada por funcionários da Secretaria do Meio Ambiente e do Centro de Ciência e Tecnologia de Antioquia (CTA), parceiro do SieNi na iniciativa. “Nessas saídas os alunos puderam tomar notas, registrar dados, relacionar tipo de plantas, tirar fotos… Esses exercícios foram envolvendo todos no processo, e eles foram se entusiasmando.”

Como lembrou Susana Borda, o projeto prevê a participação das crianças e dos adolescentes tanto nos diagnósticos quanto na formulação e na execução dos projetos de pesquisa-ação, em colaboração com professores e cientistas especialistas em água. “Queremos que as crianças sejam a alma dos observatórios da água. Que elas mesmas, pesquisando, se deem conta da gravidade da situação. E que nós possamos ajudar a empoderá-las para começar a enfrentar esses problemas.”


Saiba mais sobre o projeto: http://sieni.co/