Brasília, 27 de março de 2012

"Os docentes devem despertar o desejo de conhecer"

Álvaro MarchesiPara Álvaro Marchesi, secretário geral da OEI, há três aspectos fundamentais que os docentes devem dominar: despertar nos alunos o desejo de conhecer e continuar aprendendo, ensinar-lhes a trabalhar de forma colaborativa e transmitir valores. Nesta entrevista ele explica que essas características se aplicam a todos os educadores, independentemente da disciplina que ensinem, e fala da forma na qual se configura a mudança na formação dos futuros docentes.

O que é fundamental que deve mudar na formação dos docentes?

– Eu acredito que os processos de mudança da docência levam tempo. E por isso o importante é desenhar um bom projeto e mantê-lo durante oito ou dez anos. Isto supõe una boa formação inicial dos docentes. Isso quer dizer que aqueles que ensinam aos que vão ser docentes têm que estar bem preparados para ensinar aos que vão ser os futuros mestres. Então há uma primeira iniciativa: preparar melhor quem vai ensinar nos centros de formação e que os centros de formação sejam melhores e tenham apoio verdadeiro. Segundo: que os processos de acesso à docência sejam rigorosos e que somente passem os melhores. Terceiro: que ser professor seja atrativo; que os que se candidatem para ser professores tenham capacidades, interesses, nível suficiente porque acreditam que a profissão docente é atrativa. E a profissão docente será atrativa se as condições de trabalho, os incentivos profissionais, a exigência e o apoio se mantiverem constante. O docente vê que lhe exigem, mas que também lhe dão algum retorno. E, finalmente, há um processo de formação permanente dos docentes. Tudo isso configura uma boa perspectiva para a mudança e a melhora das condições dos professores.

– Em um momento de mudanças paradigmáticas, no qual não sabemos com clareza o que o futuro vai nos demandar, o que é que não deve faltar no processo de formação de um educador?

– O que hoje sabemos é que há três eixos fundamentais que os docentes devem dominar. O primeiro: como animar, ajudar os alunos a que desejem aprender para que tenham mais conhecimentos nos âmbitos social, científico, artístico e comunicativo. Ali estão também, para desenvolver os interesses dos alunos, as novas tecnologias e a maneira de estar na sociedade. Insisto, nem tanto ensinar conhecimento, mas também despertar o interesse dos alunos em continuar aprendendo. De pouco adianta estudar seis anos se no sétimo abandona os estudos. Tem que estudar vinte, trinta, cinquenta anos... Deve-se despertar o desejo de conhecer na sociedade atual. Segundo: ensinar os alunos a conviver, a colaborar com os outros e a elaborar projetos coletivos. Isso é uma dimensão mais social, emocional, coletiva. Portanto, já não se pode ensinar a cada aluno. Deve-se ensinar em uma perspectiva de trabalho em comum. E terceiro: deve-se ensinar os valores aos alunos. Os valores sociais majoritários, que são a liberdade, a democracia, o respeito, a tolerância. Nesses três grandes eixos temos que mexer a educação. E depois deve-se adaptá-los, pois no ano 2020 haverá seguramente novas tecnologias.

–Novas profissões, novas demandas.

–Sim, mas o aluno que aprendeu a aprender, por si mesmo se adaptará às novas condições.

–Muito do que o senhor diz tem a ver com grandes ideias, mas o que se vê na formação docente e secundária é a sobrecarga de disciplinas.

–O importante é que todos os professores incorporem estes três objetivos em suas disciplinas. O tema dos valores não tem que ficar em uma ou duas matérias, nem o tema dos conhecimentos das novas tecnologias. Todos os docentes devem assumir que eles, quando ensinam Matemática, Línguas ou Ciências, devem despertar nos alunos o desejo do conhecimento em suas respectivas áreas, e ajudá-los a conviver, a fazer projetos e a ser empreendedores, na matéria que seja. E aprender valores solidários, a ser livres e tolerantes perante os outros que pensam diferentemente. Ou seja, o professor que ensina unicamente Línguas é do passado. Ele deve animar os alunos a gostar da língua, da literatura e também a fazer projetos conjuntos, e serem inovadores na língua e a ser tolerantes com outras línguas. É um professor-modelo; não de cada uma das matérias, mas de um professor integral.

– Neste plano, que papel joga a OEI no Paraguai?

–Trabalhamos com o Ministério de Educação e o que fazemos é desenhar para os professores, com a participação dele, este tipo de formação, e temos uma série de cursos que oferecemos aos professores paraguaios em Língua, alfabetização inicial, em Educação Artística, em Matemática, e em valores. Temos uma oferta que colabora com o Ministério em suas políticas de formação.

– E na formação dos docentes?

–Colaboramos nesta linha, de um novo modelo de entender a formação docente. Colaboramos com a mudança na prática, na oferta de formação.

– O Senhor fala de capacitação ou atualização, mas o que acontece na formação inicial dos docentes?

– Isso fica a cargo do ministério e das escolas de formação docente, mas que se nos demandarem vamos colaborar. Estamos, sobretudo, na formação permanente.

–A formação docente deve ser universitária?

–Os padrões internacionais estabelecem que a melhor educação seja a universitária com duração em torno de quatro anos. Mas nem todos os países têm uma formação docente universitária. E alguns países, como, por exemplo, a Espanha até pouco tempo, a duração do curso era de três anos. O objetivo caminha nessa direção. Mas deve-se partir da realidade de cada país, da situação de suas instituições; ver se o avanço em direção aos modelos universitários e ao modelo de formação é prioridade do país ou não. Mas os padrões se situam no nível universitário dentro da lógica internacional.

–Este é um tema de discussão muito atual e há duas posturas a ser enfrentadas.

–A perspectiva internacional é: universidade, quatro anos de duração, com um processo de transição desde os modelos anteriores que cada país tenha; conscientes de que há países que não o tem feito. Inclusive estou citando Espanha que conheço mais, onde até faz um ano a duração da formação docente era de três anos. Agora usa-se o modelo de créditos universitários.