“O caminho das pedras”: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo mostra como avaliações podem ajudar escolas
Larissa Lins (C) com a diretora da OEI Brasil, Adriana Weska, e o ministro da Educação, Mendonça Filho

“O caminho das pedras”: reportagem vencedora do Prêmio Inep de Jornalismo mostra como avaliações podem ajudar escolas

OEI. 19/02/2018
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Entre 2013 e 2015, a Escola Municipal Lagoa Encantada, no Ibura, Zona Sul do Recife, teve sua nota elevada de 3.6 para 6.1 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O aumento de 69% entre os índices daqueles anos fez com que o centro municipal de ensino ganhasse atenção do poder público e encheu de confiança a comunidade escolar. “Essa nota fica marcada na história da gente, na história da escola. Ganhamos até um teto novo da última vez”, conta Thais Rafaella Souza Lopes, 10 anos, aluna do 5º ano fundamental, na reportagem “O caminho das pedras: índices de desenvolvimento educacional guiam evolução do ensino básico em Pernambuco”, de Larissa Lins.

Publicada no Diário de Pernambuco em 13 de novembro de 2017, “O caminho das pedras” ficou com o segundo lugar da categoria “Avaliações da Educação Básica” do Prêmio Inep de Jornalismo. Promovida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com o patrocínio da Organização de Estados Ibero-Americanos para Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), a premiação tem o objetivo de estimular e prestigiar trabalhos jornalísticos sobre educação, em especial aqueles que abordem os temas dos exames, avaliações e estatísticas educacionais, áreas de atuação da autarquia federal.

A reportagem premiada (com fotos de Rafael Martins e edição de Luciana Morosini e Ed Wanderley) dedicou-se a mostrar como indicadores fornecidos pelo Ministério da Educação podem, inclusive, encorajar os jovens a buscarem ingresso no ensino superior.  “Alcançar e superar metas de avaliações como o Ideb estimula os alunos a evoluírem desde cedo e ajuda as escolas a aproveitarem melhor os recursos, canalizando investimentos para suprir carências e fomentar os pontos fortes”, explica na matéria a professora e pesquisadora Elba Leicht, coordenadora do curso de pedagogia da Unicap.


Sala de aula da Escola Municipal Lagoa Encantada (Foto: Rafael Martins/DP)


A repórter

Para Larissa Lins, foram impressionantes os depoimentos das estudantes entrevistadas, “conscientes do poder transformador do estudo”. Em entrevista ao site da OEI Brasil, ela contou um pouco dos bastidores da reportagem e de sua trajetória no jornalismo. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em abril de 2014, Larissa entrou no Diário de Pernambuco em 2011, como estagiária, e depois de formada foi contratada para trabalhar no caderno de cultura, o Viver. Nos últimos anos, assinou colaborações nas áreas de educação, saúde, política e cidades. Desde dezembro, atua como coordenadora de projetos especiais do jornal.


Entrevista// Larissa Lins

1. De quem foi a ideia da pauta? Surgiu por algum dado novo, algo que tenha chamado a atenção de vocês?

A ideia da pauta partiu do editor-chefe de nossa equipe, Ed Wanderley. Em função de outras pautas, eu e Rafael Martins (o fotógrafo responsável por todas as imagens da matéria) já havíamos pegado a estrada nos meses anteriores e conhecido escolas que eram destaque no Ideb ou que adotavam formatos de ensino exemplares em diferentes municípios pernambucanos. Havíamos viajado pelo agreste e pelo sertão do estado, colhendo histórias de sucesso na educação pública, de modo que o editor sugeriu que complementássemos a apuração com bons exemplos da capital pernambucana, e compilássemos todo o material numa única reportagem. Os casos inspiradores de escolas do interior do estado nos chamaram a atenção como ponto de partida, além dos dados que já tínhamos em mãos sobre como Pernambuco havia melhorado seu desempenho nos índices de avaliação.

2. Quanto tempo você levou fazendo a reportagem, levando em conta pesquisa/apuração, redação, edição?

Além das viagens que já havíamos feito pelo agreste e sertão durante cerca de três meses, para outras pautas além daquela, o processo de produção da reportagem premiada durou aproximadamente três semanas. Durante este período, fiz a compilação do material, as apurações na capital pernambucana, colhi mais dados e escrevi o texto, revisado e editado pela editora-assistente da nossa equipe, Luciana Morosini.

3. Foi como imaginava que seria? Algo que tenha surpreendido?

Foi surpreendente. O resultado final, pelo que entendi, fugiu um pouco do que foi imaginado pelo editor-chefe ao sugerir a pauta. Mas, ao meu ver, foi satisfatório em mostrar histórias inspiradoras de estudantes, professores e gestores pernambucanos comprometidos com a educação. Os depoimentos das estudantes da Escola Municipal Lagoa Encantada, no Ibura, periferia da Zona Sul do Recife, me impressionaram. Humildes e muito conscientes do poder transformador do estudo, as meninas que entrevistei sonham com a faculdade de Medicina e encheram a reportagem de esperança e disposição para a luta.

4. Considera importante a existência de premiações como esta, para incentivar trabalhos jornalísticos sobre educação? Acha que isso pode incentivar os jornalistas a ter maior familiaridade com a utilização/análise de dados, buscar outros olhares, outras abordagens?

Acho que premiações do gênero são fundamentais para estimular a produção jornalística em torno do tema e, consequentemente, dar vitrine à boa conduta de estudantes, professores, gestores e funcionários ativos nos bastidores da educação. É preciso incentivar os bons exemplos de quem está na linha de frente na construção de um sistema público de ensino eficiente, sobretudo por se tratar de uma área que faz nascer todas as outras, um setor que é ponto-chave para o país que queremos ter. Quanto à coleta e análise de dados e estatísticas educacionais, acho que o incentivo a reportagens do gênero pode desmistificar estes números e encorajar seu uso como matéria-prima para abordagens sensíveis, sociais.

 



** Esta é a terceira de uma série de entrevistas feitas com os repórteres vencedores do Prêmio Inep de Jornalismo. Na próxima semana, teremos Flávia Milhorance e a série de reportagens do Projeto Colabora, segunda colocada na categoria “Estatísticas Educacionais".

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