Espanhol e do Português na recuperação das economias pós-COVID

OEI. 07/07/2020
Tamanho do texto+-

A Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) promoveu nessa quinta-feira (02) em colaboração com os institutos Camões, de Portugal, e Cervantes, da Espanha, o e-Fórum: “Potencial das línguas na recuperação das economias: espanhol e português”. O debate contou com a presença do presidente do Camões IP, Luís Faro Ramos, do diretor do Instituto Cervantes, Luís Garcia Montero, do professor Luís Reto e do catedrático José Luís Garcia Delgado, além do secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero, e da diretora em OEI Portugal, Ana Paula Laborinho. O debate foi moderado pelas jornalistas Estela Viana, em Madrid, e Maria Flor Pedroso, em Lisboa.

A relação entre as línguas e as economias, como facilitadora dos negócios, nesta era de pandemia foi o principal foco do debate. São mais de 800 milhões de falantes de espanhol e português em todo o mundo. O secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero, iniciou os trabalhos apontando para a importância desse número e para o fato de que a região ibero-americana conta com um grande “potencial artístico, cultural e também econômico” e por isso, “devemos valorizar aquilo que nos une”, destacou.

“É através do reconhecimento das duas línguas que valorizamos e empoderamos os seus falantes, damos-lhes mais capacidade para intervirem nesse mundo global. Muitas vezes, as nossas línguas não são suficientemente valorizadas e a verdade é que a sua dimensão já é suficientemente significativa para terem um papel cada vez maior neste mundo global”, observou a diretora da OEI em Portugal, Ana Paula Laborinho. Segundo Laborinho, apesar de valorizarmos estas duas línguas, não podemos deixar de reconhecer a importância de todas a línguas e a importância da diversidade cultural e linguística. “É uma competência e também um traço essencial na própria economia.”

As economias mundiais, e em especial, dos países do espaço ibero-americano, atravessam um dos períodos mais difíceis da história mundial devido à pandemia causada pelo novo coronavírus. Nesse sentido, o diretor do Instituto Cervantes, Luis García Montero, afirmou que esta pode ser uma oportunidade para os países ibéricos. “Espanha e Portugal podem liderar este processo a partir da Europa, pensando no progresso em termos de solidariedade democrática que tornará a riqueza mais justa. Esta é uma oportunidade para inverter uma situação que, antes do coronavírus, nos conduzia ao abismo, com uma distância crescente entre elites e maiorias empobrecidas nas nossas comunidades.”

Para o diretor do Instituto Cervantes, o português e o espanhol podem assumir um papel central na consolidação dos valores democráticos na era que se seguirá à pandemia da Covid-19, “Devemos transformar as nossas línguas numa área de consolidação dos valores democráticos e que valor democrático maior do que a sensação de ser uma língua materna com uma comunicação aberta de identidades no novo mundo digital que se está a abrir diante de nós”, afirmou Luis García Montero.

Já o Instituto Camões avalia que estas novas oportunidades que surgem, nestes tempos de pandemia, podem ser aproveitadas para transmitir os valores e a cultura que estão impressas nas línguas espanhola e portuguesa. Esses valores intangíveis e as várias dimensões das línguas, em especial a dimensão política, cultural e social. “São também muito importantes e, às vezes, mais lucrativas do que transações meramente comerciais ou investimentos financeiros, sobretudo, de maior duração no tempo”, referiu o presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos.

O professor do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), Luís Antero Reto, autor do estudo sobre o potencial econômico da língua portuguesa e do recém-publicado livro “O essencial sobre a Língua Portuguesa como Ativo Global”, destacou que esta situação pós-pandemia, é uma boa oportunidade para aumentar as trocas dos serviços e bens culturais como a gastronomia e as artes. “Felizmente esses produtos e esses bens não estão taxados pelos blocos econômicos, ou seja, não estamos sujeitos a países terceiros como nos produtos comerciais”, pontuou.

Para o catedrático José Luis García Delgado, da Universidade Complutense de Madrid e coordenador do estudo sobre o valor econômico do espanhol, este é um período importante que pode trazer muitas vantagens para as línguas portuguesa e espanhola. “Não partilhar uma língua aumenta o custo da presença no mercado”, disse.

De acordo com catedrático, significa que, na prática, 1/3 das empresas exportadoras aumentam o seu volume de negócios em mais de 1% devido à adaptação dos produtos e campanhas de marketing em outra língua. “A necessidade de operar em outra língua representa mais de 1% do seu volume de negócios, o que não é um valor baixo quando estamos falando de empresas com um volume de negócios de milhares de milhões de euros.”

O estudioso acrescentou que a linguagem não é apenas feita de palavras, mas também atitudes e comportamentos. “Partilhamos, em parte, um conjunto de componentes culturais que facilitam a compreensão, a confiança, e em economia não há palavra mais importante do que esta: confiança. Investir, assumir riscos, inovar”, completa.

Na base do desenvolvimento de qualquer economia está uma boa educação. A explicação fez parte da fala do secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero, ao destacar o forte impacto da pandemia na educação em todo o espaço ibero-americano e como a OEI assumiu o protagonismo de contribuir para minimizá-lo. “Durante a pandemia, 180 milhões de crianças ficaram sem aulas. Isto tem um impacto muito sério, traduzindo-se em piores oportunidades para no futuro. Sabíamos que podíamos alcançá-los com recursos digitais, mas muitos desses estudantes não têm acesso à internet”, ressaltou Jabonero ao exemplificar o caso da América Central, onde cerca de 80% dos estudantes encontram-se neste caso. “Isto aprofunda as nossas desigualdades. É por isso que o reforço da linguagem na primeira infância é um grande compromisso da OEI. A língua é a melhor garantia de uma vida futura com capacidade para o bem-estar”, conclui.

O e-Fórum “Potencial das línguas na recuperação das economias: espanhol e português” é desdobramento das iniciativas propostas na Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola (CILPE 2019), evento da OEI realizado pela primeira vez em Lisboa, em novembro passado. Decidiu-se, na época, que seriam organizados fóruns temáticos de modo a aprofundar os eixos considerados prioritários para a promoção das duas línguas.