Evasão escolar no 1º ano do ensino médio é tema de série ganhadora do Prêmio Inep de Jornalismo

Evasão escolar no 1º ano do ensino médio é tema de série ganhadora do Prêmio Inep de Jornalismo

OEI. 27/02/2018
Tamanho do texto+-

O primeiro ano do ensino médio é a série que apresenta as maiores taxas de evasão (12,9%) e abandono (8,6%) da educação básica no Brasil, segundo levantamento com base em indicadores divulgados em 2017 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Pobreza, violência e dificuldade de acesso à escola são algumas das principais motivações para a evasão escolar. Esses fatores, no entanto, não surgem no ensino médio. Por que então essa faixa seria a mais vulnerável?

Buscando respostas para a questão, os repórteres Flávia Milhorance, Levi de Freitas e Catarina Barbosa prepararam três reportagens para o Projeto Colabora: “Ensino (abaixo do) médio”, “Evasão recorde no primeiro ano do Ensino Médio no Pará”, “Como o Ceará está vencendo a repetência no Ensino Médio”. A série levou o segundo lugar na categoria “Estatísticas Educacionais” do Prêmio Inep de Jornalismo, promovido pelo instituto em parceria com a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).


A pauta

Adriana Barsotti, editora do Projeto Colabora, foi quem teve a ideia da pauta, a partir de uma palestra de Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef no Brasil, que havia assistido no evento “Educação 360”, de O Globo. A palestra era sobre um aplicativo que o Unicef estava lançando para localizar crianças e adolescentes fora da escola. Como o Prêmio Inep privilegiava reportagens a partir de estatísticas educacionais, a editora buscou nos dados do instituto aqueles que se referiam exclusivamente ao abandono escolar.

“Ao verificar que o primeiro ano do ensino médio concentrava os números mais críticos em todo o país, a ideia foi fazer uma matéria principal, discutindo os problemas na transição do ensino fundamental para o médio e identificar os estados com melhor e pior desempenho para que fôssemos até lá e conseguíssemos contar os bons e maus exemplos”, conta Adriana.

A produção da série, a cargo da jornalista carioca Flávia Milhorance, levou cerca de três semanas. “Isso foi possível porque tive a colaboração de dois editores do Projeto Colabora, Adriana Barsotti e Valquíria Daher, e dois repórteres colaboradores, Catarina Barbosa, do Pará, e Levi de Freitas, do Ceará. Além do editor de arte, Fernando Alvarus”, ressalta Flávia. 


Rede estadual do Ceará: investimento em escolas de tempo integral (foto Rosane Gurgel/Seduc/CE)


Os repórteres

Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Flávia Milhorance trabalhou mais de cinco anos para o jornal O Globo. Com passagens também pelas redações da Band News e da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), acostumou-se a cobrir temas variados. Atualmente, está cada vez mais inclinada aos temas sociais, meio ambiente, educação, direitos humanos. “Geralmente gosto de buscar histórias em que estes temas se encontram”, comenta a repórter, que voltou ao Rio de Janeiro em outubro de 2017, depois de dois anos na Europa por conta de um mestrado em Jornalismo, Mídia e Globalização, com especialização em negócios e finanças. 

Nesta série premiada pelo Inep, ela contou com a colaboração de repórteres dos estados que apresentavam os piores e os melhores índices no ano inicial do ensino médio. Catarina Barbosa, que assina o texto de “Evasão recorde no primeiro ano do Ensino Médio no Pará”, é jornalista formada pela Universidade da Amazônia (Unama), com passagens pelo jornal Diário do Pará, pela TV Liberal e pelos sites G1 Pará e Amazônia Real. Já Levi de Freitas, autor de “Como o Ceará está vencendo a repetência no Ensino Médio”, é um jornalista de Fortaleza que atua no Sistema Verdes Mares de Comunicação desde 2010, tendo passado pelas duas TVs, web TV, rádio, portal e jornal impresso. 

Para Flávia, poder mostrar perspectivas de diferentes regiões brasileiras foi um dos pontos altos da série. “A maior parte das publicações está no Sudeste, então nossa visão acaba sendo muito voltada para cá. Ter incluído ao time dois repórteres de duas regiões brasileiras além do Sudeste enriqueceu o trabalho, trouxe histórias mais interessantes do que se eu tivesse feito o trabalho sozinha a distância.” 



Duas perguntas para// Flávia Milhorance


1. O trabalho saiu como imaginavam? Houve alguma surpresa, algo que tenha chamado a atenção de vocês durante a realização da reportagem?

Toda reportagem mais profunda traz surpresas, é sempre um processo de aprendizado para o repórter, e neste caso não foi diferente. O que me chama a atenção é que a evasão no ensino médio é um desafio multidisciplinar. Não é só uma questão de melhorar a qualidade de uma escola. Ela fala, por exemplo, de juventude: quem são os jovens brasileiros e o que eles querem e esperam da escola e do futuro. Fala de como o desenvolvimento social de um lugar pode ou não levar à evasão... E, embora seja um tema de preocupação nacional, existem particularidades regionais que também foram investigadas. 


2. Considera importante a existência de premiações como esta, para incentivar trabalhos jornalísticos sobre educação, em especial aqueles que abordem os temas das avaliações e estatísticas educacionais?

Os dados do Inep escondem várias histórias relevantes e cabe a um jornalista atento e disposto descobri-las. Saber que uma instituição prestará atenção a este tipo de trabalho é, sem dúvida, um incentivo para continuarmos buscando estas histórias. 



** Esta é a quarta de uma série de entrevistas feitas com os repórteres vencedores do Prêmio Inep de Jornalismo. Na próxima semana, teremos Guilherme Azevedo e a reportagem “Educação infantil é lugar de homem? Eles mostram que sim”, do UOL, terceiro lugar na categoria “Estatísticas Educacionais”.


Leia também: